18 de maio de 2009

... e o mundo ficou mais triste

Morreu, aos 88 anos, o poeta uruguaio Mario Benedetti (eu já havia falado dele aqui). Com ele, vai-se embora um pouco da graça do mundo, da alegria, da poesia das pequenas coisas.

Quando penso em Benedetti sempre toca como música de fundo na minha cabeça, a canção Love Theme, de Ennio Morriconi, trilha sonora de Cinema Paradiso. Isto porque Benedetti era assim... um sujeito de olhar manso, cara de avô de filme e singeleza nos versos.

Traçava sua poesia com uma simplicidade só encontrada na genialidade. Nada de grandes versos programados metricamente, pensados durante dias, analisados palavra por palavra, para que tudo case perfeitamente. Era simples, fluente, singelo, puro.... fantástico.

Benedetti escreveu em toda sua vida mais de 80 livros de poesia, romance, contos e ensaios, além de roteiros para o cinema. Ganhou prêmios, viveu a vida...

Sua última obra publicada foi o poemário "Testigo de Uno Mismo", no ano passado. Benedetti estava trabalhando em um novo livro de poesia, que tinha o título provisório (e oportuno, diga-se de passagem) "Biografía para encontrarme".

24 de março de 2009

Antônimos

Para fazer linguiça você tira a tripa de dentro do porto e coloca o porco dentro da tripa.
Assim, a linguiça é o antônimo do porco...

21 de março de 2009

Um verso...

Síntese da Felicidade
(Carlos Drummond de Andrade)


Desejo a você

Fruto do mato

Cheiro de jardim

Namoro no portão

Domingo sem chuva

Segunda sem mau humor

Sábado com seu amor

Filme do Carlitos

Chope com amigos

Crônica de Rubem Braga

Viver sem inimigos

Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial

E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico

Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma

palavra amável

Ter uma surpresa agradável

Ver a Banda passar

Noite de lua Cheia

Rever uma velha amizade

Ter fé em Deus

Não Ter que ouvir a palavra não

Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança

Ouvir canto de passarinho

Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor

Que nunca será rasgado

Formar um par ideal

Tomar banho de cachoeira

Pegar um bronzeado legal

Aprender uma

nova canção

Esperar alguém na estação

Queijo com goiabada

Pôr-do-Sol na roça

Uma festa

Um violão

Uma seresta

Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo

Bater palmas de alegria

Uma tarde amena

Calçar um velho chinelo

Sentar numa velha poltrona

Tocar violão para alguém

Ouvir a chuva no telhado

Vinho branco

Bolero de Ravel

E muito carinho meu.

17 de março de 2009

Historietas

O vira latas mais sortudo do mundo

Todo domingo ele cumpre o mesmo ritual. Levanta às dez e sai de casa ao meio dia. Atravessa a praça e vai ao açougue. Compra um frango assado em televisão de cachorro, dá meia volta e retorna pelo mesmo caminho.
Em casa separa o frango. Gosta das asas e da sambiquira; a sambiquira principalmente. Gosta tanto que certa vez cogitou escrever uma carta para o departamento de biologia de alguma faculdade sugerindo uma pesquisa para desenvolver uma galinha com dois rabos, mas achou que seria melhor patentear a idéia antes.
Do peito e das coxas não gosta. Esses ele dá para o cachorro vira latas que adotou em uma das suas idas dominicais ao açougue. O vira latas mais sortudo do mundo.



Sorriso novo
Ele não tinha nenhum dente na boca. Sofria para comer. Preferia sopa com legumes cozidos. Carne, quando havia, tinha que ser na pressão, derretendo.
Era doentinho, não podia trabalhar; passava os dias em casa ouvindo o rádio e olhando os buracos nas paredes de madeira.
A mulher olhava ele sofrendo para engolir a comida. Era de idade, mas não tanto quanto ele. Lavava e passava por dia para sustentar a casa.
Um dia decidiu. Fez economia, lavou mais, limpou mais e pagou um dentista. Deu de presente a dentadura.
Agora ele podia comer legumes mais tenros e uma coxa de galinha, talvez.
Passou uma semana ele saiu de casa e não voltou mais. Ganhou o mundo com seu sorriso novo.



O bigode do meu irmão
Meu irmão mais novo raspou a barba antes de mim. Tinha 14 e falou pro pai que não queria parecer ridículo como eu, andando com aquele monte de penugem preta debaixo do nariz. O pai teve que apartar a gente.
Hoje ele se barbeia toda manhã; norma do escritório onde passa o dia trancado.Eu sempre deixo a barba e passo o dia na rua, fotografando a vida.

11 de outubro de 2008

Salve, Cartola!!

"Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida". Ainda era cedo para Cartola partir, em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos. A idade pode parecer muita - e realmente é, se formos observar pela ótica da natureza humana - mas é pouco, se olharmos pelo lado da arte; "longa é a arte, tão breve é a vida", diz a música 'querida', de Tom Jobim.

E assim foi a vida de Cartola. Pequena para quem ainda tinha tanto a dar.

Cartola nasceu Agenor de Oliveira, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro e, exatamente hoje, 11 de outubro, completaria 100 anos (tendo nascido, portanto, em 11/10/1908, é óbvio).

Escolheu o nome e as cores (em homenagem ao fluminense, dizem) da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, além de ter composto inúmeros sambas em homenagem à agremiação - de minha parte gosto muito de 'Sala de recepção'.

Ao todo compôs sozinho ou em parceria, mais de quinhetas (isso mesmo, qui-nhen-tas) canções. Somente a música 'o sol nascerá' foi regravada mais de seiscentas vezes.Suas músicas tem na letra uma carga poética muito forte e melodias bastante elaboradas (já tentei tocar e - vou te contar - não é bolinho, não). Apesar da riqueza de sua poesia, Cartola só estudou até o primário.

Ganhou o apelido que o faria reconhecido enquanto trabalhava de pedreiro em uma obra. Era muito vaidoso e não gostava que o cimento sujasse seu cabelo, então usava sempre um chapéu - daí seus companheiros o apelidaram de Cartola.

Apesar da genialidade, Cartola gravou seu primeiro disco somente em 1974, aos 65 anos e, ainda apesar - só que desta feita apesar do sucesso de seus sambas -, morreu pobre, morando numa casa doada pela prefeitura do Rio.

"Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve."
Nelson Sargento

25 de setembro de 2008

Cien años de soledad

Alguns livros marcam a gente. Outros, sequer nos lembramos de ter lido - se bem que isso nunca me aconteceu. Talvez pelo fato de nunca ter lido algo que não quis ler além do que fui obrigado pelo trabalho de conclusão de curso.

Ainda assim, tais livros tiveram sua serventia passageira, apesar de eu nunca ter conseguido incluir Pierre Levý em uma discussão que não fosse enfadonha com um teórico qualquer...

Mas, esse texto é para falar de livros que valem a pena e desta feita quero abordar o excelente "Cem anos de solidão", do genial Gabriel García Márquez, que estou lendo pela segunda vez - e esta está sendo ainda melhor que a primeira.

Acompanhar a história da família Buendía, decifrar sua árvore genealógica, traçando um mapa na cabeça para não se perder na teia de personagens criada pelo autor (afinal, são 22 personagens chamados Aureliano - sem contar os Arcádio). É um trabalho de imaginação exigente, encontrado em poucas obras da literatura mundial.

Cem anos de solidão é, talvez (e sempre na minha humilde opinião), o livro mais quimérico da literatura latino-americana, quiçá da lingua espanhola - excluindo-se desta última lista "Dom Quixote", do também gênio, Miguel de Servantes, ou desde este, incluindo Jorge Luís Borges, mestre do fantástico.

Afinal, em que outro livro pode se encontrar tanta diferença e tanta coincidência em seus personagens? Ou mesmo presenciar uma chuva de flores ou borboletas amarelas que seguem a beleza de uma mulher? Ou ainda 32 guerras e incontáveis histórias de amor?

Mas a grande sacada do livro é enxergar além dos personagens para entender o círculo de previsões, histórias que se ligam e acontecimentos que nos levam do começo ao fim e novamente ao começo. Coisa que na segunda leitura torna-se muito mais fácil.

Vale a pena ler... mais de uma vez.

19 de setembro de 2008

Câmara Viajante

Assisti ontem, no Canal Brasil, o curta metragem "A câmara viajante", de Joe Pimentel. Foi uma alegria, não somente por se tratar de um filme que de certa forma aborda minha profissão (sim, sou fotógrafo - mas diferente dos personagens mostrados, trabalho com fotojornalismo), mas pela beleza das imagens, da fotografia do filme, da narrativa e, principalmente, das histórias dos lambe-lambe e fotógrafos de feira (como seria o plural de lambe-lambe?).

O filme mostra o cotidiano de sertanejos que escolheram a fotografia como meio de ganhar a vida, retratando romeiros junto à estátua de Padre Cícero, encravada no meio do sertão cearense.Usando equipamentos e técnicas já ultrapassadas (alguém ainda usa filme e câmara analógica no meio profissional?), esses "fotrógafos" (como um deles mesmo diz), vencem a vida com seu "górpe de vista" e muita fé, explorando nos outros essa mesma crença que seguem cegamente.

Além do fotógrafo, o filme também mostra um personagem que vive do retrato, transformando fotos em pinturas, restaurando memórias com tinta e pincel.

Vale mesmo a pena ver...


Câmara Viajante. (Documentário) Direção de Joe Pimentel. Roteiro de Joe Pimentel, Isabela Veras. Fotografia de Eusélio Gadelha. Brasil, Trio Filmes, 2007, 20 min, Color., 35mm.